terça-feira, 18 de agosto de 2015

É miga ou é vadia?

Não, esse post não é pra falar de atitude de homem babaca. Embora talvez até seja, de certa forma, indiretamente. Esse post, na real, é pra você miga, que precisa entender que: uma mulher conversar com o seu boy não faz dela uma "vadia".

Falei num post essa semana (o de ontem, pra ser mais exata, hehe) que nunca caí na ideia de entender o porquê algumas pessoas se orgulham de terem sempre o mesmo pensamento. Falo isso porque eu, ao longo dos anos, especialmente nos últimos, mudei muito a minha forma de enxergar certas coisas. Uns chamam de hipocrisia o que eu chamo de crescimento pessoal.

Quando era mais nova eu repetia tanto discursinho machista besta, tinha umas atitudes bestas, que graças a Deus eu mudei a forma de pensar. E não, esse post não é cagação de regra, ele é real porque a melhor coisa que eu fiz foi mudar o meu pensamento. Foi libertador, sérião. 

Se eu conhecia alguém novo, eu logo me colocava em competição com a ex ou a com a possível próxima do moço. Era fácil julgar a garota com a saia muito curta na festinha ou com a barriga de fora na escola. Era tão fácil analisar qualquer guria pra ver no que ela parecia ser melhor ou pior que eu. Era muito fácil dizer que eu não era como as outras garotas, porque ser como as outras garotas só poderia significar algo ruim.

Como eu era boba.

Eu sou como as outras garotas. Eu não sou melhor que elas. Elas não são minhas inimigas.

Precisei ler muita história, muita vivência, muito texto, artigo, relato, e ainda preciso muito mais pra desconstruir tudo o que eu ouvi a vida inteira, vi a vida inteira. Ninguém nasce sabendo, mas todo mundo pode saber, né? Nem que seja um pouquinho, nem que seja em baby steps. 


Lembro de uma aula de Sociologia Jurídica que tive no segundo semestre de faculdade. Eu estava lá no meio de gente que estava pra se formar, e tudo o que eu fazia era observar e absorver coisas que só meses depois eu viria a tirar (muito mais) proveito. Na aula em questão meu professor falou o quanto a mulher sempre foi pintada como a figura do diabo. Era a mulher que era bruxa e ia pra fogueira. Era a mulher o bicho que sofria de histeria feminina. Quando uma mulher traí, as pessoas fofocam, ela é a vagabunda, a puta. Quando o homem traí, as pessoas aquietam, fingem que não viram. Até os dias de hoje temos nossos ouvidos enchidos de cantos que dizem o quanto as mulheres fazem todo mundo sofrer, que reforçam a ideia de que toda mulher quer ser princesa e que todo homem é herói, que reforçam ideia de que mulher é bicho burro, pecaminoso.

A Chimamanda bem que falou que seria ótimo que nós fossemos educadas pra competir por posições de trabalho, posições políticas, por exemplo, e não por homem, não pro casamento, porque daí sim a competição seria válida, e por certo nivelaria a coisa por cima.

Mas não. Não ainda. Temos uma sociedade inteira, por décadas, dizendo pras minas que elas não são o suficiente; que elas são gordas demais, magras demais, com peito demais, com pouco peito; que se o cara traiu foi porque ela não comparecia; que se o cara quis ela e ela não quis ele só pode haver alguma coisa de errado com ela; que se ela não quis o cara que é tão legal com ela, ela tá colocando ele na friendzone; que se ela usa maquiagem, ela tá se vendendo como algo que não é; que se ela não usa maquiagem, ela é desleixada; que se ela gosta de sexo, ela é puta (contanto que não esteja em um relacionamento, afinal, é preciso um relacionamento pra validar que uma mulher possa curtir sexo) e se ela não gosta, ela é puritana e frígida; que se ela é lésbica, é porque ela não experimentou um sexo bom com o cara certo ou quando ela sair pra festa vai ter que ouvir uns dá uns bejo pá nóis vê; que não existe isso de ser bi, se é bi, é automaticamente hétero.
Então não, eu não vou reforçar isso e me colocar em competição com as minas. Em me achar melhor que elas. Em achar que porque eu gosto de ler e ver TV, eu valho mais que a moça que gosta de dançar funk em baile carioca (eu amo dançar funk, gente). No final do dia, nós estamos todas juntas nesse barco

E não, eu não tô falando que você tem que ser amiga, melhor amiga, de todas as gurias que você conheceu na vida. Não tem nada disso. Até porque ninguém agrada todo mundo. Eu só tô dizendo pra largar mão de achar que toda mulher quer tirar teu espaço, quer ser melhor que tu, quer tirar seu homem de você.

Porque, convenhamos, quando um não quer, dois não dançam. Se tu confia no teu namorado, no teu peguete, no teu marido, não vai ser uma mulher flertando com ele que vai fazer com que ele pare de gostar de você (e se vai, acredite, toma uma dose de amor próprio que você fica melhor sem ele), porque pro caralho que a a carne é fraca.

Por alguns motivos penso que eu, se solteira, não me envolveria com alguém que está em um relacionamento. Primeiro por respeito à mina, sororidade e coisa e tal. Segundo porque se o cara quer algo mas não consegue terminar o relacionamento dele, ele é um bosta (ele. Não eu, não a namorada dele). Terceiro porque cada um tem sua ideia de caráter, e, pra mim, se tu aceita um compromisso, tu honra. Mas por outro lado, se eu, solteira, quiser me envolver com alguém, eu tô solteira, ué, não sou eu que aceitei um relacionamento e quero trair meu companheiro. Então a culpa, em tese, tá longe de cair no meu colo. Porque eu não sou o fruto proibido que fez o cara cair na tentação. It takes two to tango, no final das contas.

Por óbvio, acredito que um ciúmes(inho) role sempre, mas poxa, temos que aprender a direcionar e lidar com isso com a pessoa certa, não com x terceirx da história. Ninguém é poste pra cachorro mijar em cima pra que tenhamos que expulsar o dog pra longe. 

E ainda digo mais, se ser vadia é ter controle da sua vida ou correr atrás de quem se gosta ou ter coragem de chamar o cara pra sair ou carregar camisinha na bolsa ou sair pra noite atrás de só uma diversãozinha ou querer dar fora em todos os homens da balada (eles talvez também te chamem de sem graça e mal comida porque a criatividade deles é ó: ótima), bem, sejamos todas vadias desencanadas. ¯\_(ツ)_/¯

Posso dizer com muita convicção que sou uma pessoa melhor hoje em dia por causa do feminismo, porque em algum ponto ele me tirou dessa jaula e fez com que eu enxergasse as coisas de outra forma, de uma forma melhor e mais saudável. Tô tentando ignorar quando vejo os homens falando bobagem, porque ain't nobody got time for that. Mas quando vejo guria nessa vibe errada, reproduzindo esses trem errados, eu fico triste. Porque eu só posso me divorciar por causa do feminismo, eu só posso cursar uma faculdade porque um dia umas mulheres lutaram por esse meu direito, eu só posso votar, sair pra festa sozinha, ter um pouco de controle sobre o meu corpo, administrar meu dinheiro, porque umas minas lá atrás lutaram por isso. Então como posso eu achar que as minas são naturalmente minhas inimigas? Não dá. Não aceito. Os caras tão aí achando que todo cara é brother até que prove o contrário, então por que a gente tem que achar que toda mulher é ruim até que se prove o contrário? 

Mudei minha cabeça, ainda bem!, e de cara, apesar de parecer mal humorada e nojenta, acreditem, agora eu sou miga de todas as minas, e se por algum infortúnio do destino eu deixar de ser, acredite, ex-miga, que de vadia (ou qualquer outro desses xingamentos péssimos) eu não vou chamar você.

A Anna Vitória, em textos que enveredam pelo feminismo, junta uma série de links que valem a leitura. Acho a ideia mega válida, então seguem alguns:
Obs,: esse post, coitado, ficou sem pé nem cabeça, mas era só um monte de coisa que eu precisava tirar do meu sistema fazia semanas. Ces't la vie.  

BEDA (blog everyday in august) #18

11 comentários

  1. Moça, você explicou isso de um jeito tão maravilhoso que acho que qualquer moça que se conforma em reproduzir machismo vai abrir os olhos com ele.

    Sempre que eu julguei alguma mina por qualquer coisa sem conhecer ela, eu parei pra pensar direito. Até a ex do meu ex, eu fui conferir pra ver se ela era tão vaca quanto eu tinha ouvido falar do círculo social dela. Ok, no fim eu até tinha motivo pra não gostar dela - ela continuava tentando voltar com ele mesmo que ele estivesse comigo -, mas ela não era uma vaca. Era só uma menina normal querendo de volta o cara que ela deixou. Natural isso. No fim, quando a gente terminou, ele hesitou bastante mas voltou com ela, mas ok né, a vida segue em frente.

    Ouvi dizer uma vez que quando você pensa algo ruim de uma guria e depois para pra pensar direito e pensa algo diferente, é porque o primeiro pensamento é aquilo que a sociedade te condicinou a pensar, e o segundo é o que você realmente pensa. Então às vezes é até comum a gente pensar "nossa, que vadia", e depois pensar direito e ver que nós só achamos aquela pessoa vadia porque a sociedade nos fez pensar assim. É escroto isso, mas ainda bem que muita gente não fica empacada no primeiro pensamento. :)

    Beijinhos ;*

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  2. Sabe, quando eu era mais nova eu me achava a feminista, hoje eu vejo que eu tenho muito de machismo enraizado aqui. E o pior é que nem é porque eu acredito naquilo, mas é porque estou tão acostumada a falar aquilo que sai e depois eu me arrependo porque não é o que eu acredito ou quero acreditar. Estou no momento de controle e de mudança, porque eu quero tirar uma imagem de vadia da minha cabeça, porque a sociedade deixou ela aqui, mas eu não a quero mais. Tipo, confesso que tenho um pouco de vergonha por admitir isso, mas não sou hipócrita de fingir que ainda não faço comentários machistas. E acho que tem muita mulher que ainda faz e da mesma forma que eu, ela não acredita, mas saí. Uma bosta isso, eu sinto nojo de mim quando solto esses comentários, é jogar fora o esforço e morte de muita mulher. Estou mudando isso e vou mudar, porque, como você disse aí, quero ser amiga das mina hahahaha
    Beijos! =**

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  3. Este texto. :3

    Um das minhas maiores vergonhas (e olha que eu tenho muitas!) foi ter passado boa parte da minha adolescência (e porque não, adultocência :P) me gabando de ter mais "amizades" do sexo masculino, porque né, as mulheres são invejosas e falsas e EU NÃO ERA COMO ELAS. *abana a cabeça de vergonha*

    E sim, fico muito feliz que a gente tem (e deve usa sempre!) a capacidade de mudarmos de opinião. Evolução é isso aí. O feminismo me libertou e ainda me liberta muito de coisas que antes me preocupavam.

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  4. Ana, vem cá ser minha miga, e peloamor não diz que esse texto ficou sem pé nem cabeça, ele ficou sensacional, de verdade.

    E sempre quis ser "legal" igual nos filmes, ser "one of the guys" e etc e tal, mas a verdade é que eu sempre me dei melhor com as mina. Hoje eu vejo que não podia ter feito nada mais certo na vida. Nenhum homem nunca vai me entender melhor que uma guria, e a gente precisa parar com essa rivalidade para ontem.

    Eu tive aula de sociologia jurídica no segundo período com uma mulher sensacional. Foi a primeira feminista declarada que eu conheci na vida. Foi nessas aulas também que eu aprendi várias coisas que só fui compreender realmente vários anos depois. Se não pra mais nada, pelo menos isso a faculdade de direito me deu.

    Queria agradecer muito o carinho e a presença lá no blog. Mil desculpas por não ter conseguido aparecer aqui nos últimos dias, mas agora já está tudo certo e estou de volta!

    Beijos!

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  5. Também escrevi um post sobre esse mesmo assunto, também pensando dessa mesma forma: como a gente era novinha e achava que todas as meninas eram inimigas e falsianes. Aliás, acho terrível isso dessa novela, hahahah.

    Eu falava exatamente dessas meninas que Paloma citou aí em cima, que se achavam diferentes de todo mundo, e que queriam estar na turma dos meninos, essas coisas. E na real, na real mesmo, cada vez mais acredito que estamos todas juntas no mesmo barco. E se tem algumas fora do barco, cabe a gente mesmo explicar pra elas que o barco é legal, miga, seje do barco, hahaha. Isso fez algum sentido?

    Beijoooooooo
    (Ai, acho que nunca tinha comentado aqui, shame on me, mas estou adorando e vou linkar heheheheeh)

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  6. Yeeeeees! Sim, amiga. Sim para todo teu texto.
    Sejamos todas vadias desencanadas! Sejamos donas de nós mesmas e por favor sejamos migas.

    Eu morro de vergonha dos pensamentos que costumava ter, mas sinto um orgulho muito maior ao pensar que desconstruí tudo isso e agora sou outra pessoa, de verdade. Que lindeza, né? <3
    Não ficou sem sentido nada. Ficou genial!
    Beijos <3

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  7. Estamos juntas, Ana! Também precisei ler muito e pesquisar muito para descontruir todo esse pensamento machista a qual fomos condicionadas desde sempre. Eu nunca cheguei a brigar por homem, porque tenho amor próprio demais para isso (pelo menos!), mas julgava muito outras meninas por conta de suas atitudes e prioridades até perceber que aquilo não fazia o menor sentido. Eu estava me voltando contra o lado errado, eu deveria me aliar a essas outras meninas mesmo sendo diferentes de mim, porque, afinal, é como você disse: estamos no mesmo barco. E eu sinto que eu evolui muito desde que passei a defender o feminismo, por ter crescido num ambiente conservador onde a independência é mais fácil para o irmão mais velho, e a mais nova tem que esperar o casamento. Tipo, o quê? Depois de ler Emma, principalmente, quero quebrar todas esses estereótipos malditos. Uma por todas e todas por uma. Parabéns pelo texto maravilhoso. <3

    Beijinhos.

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  8. Adorei Ana!! E eu concordo demais com você: mudar de opinião é crescimento; é perceber que não era legal. Eu também pensava muita coisa do tipo e fico muito feliz de me perceber desconstruindo aos poucos o que enfiaram na minha cabeça. Mulheres são amigas SIM e a amizade feminina é uma das coisas mais importantes da minha vida.

    Beijo!

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  9. Mina, esse post ficou tudo, menos sem pé nem cabeça. Não tinha lido ele ainda porque os últimos dias foram super corridos, mas como é bom parar o dia pra ler uma coisa dessas. Que maravilhoso ver que, no meio de tanta bosta que a gente vê nessa internet, tem gente que vem e fala uma porção de coisa boa, que dá gosto de ler. Concordo muito quando você diz que mudar de opinião é crescimento. Até pouco tempo atrás eu achava que não, que mudar de opinião significava que meus argumentos eram fracos, que eu não tinha personalidade ou qualquer coisa assim e na verdade não, não tem nada disso. Acho importante a gente desconstruir alguns pensamentos errados e ser humilde pra admitir que sim, a gente errou, mas pelo menos a gente aprendeu. Imagina se eu ainda fosse a pessoa errada que fui um dia? Eu hein.

    beijo!

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  10. Ótimo texto! <3

    E obrigada pela indicação! (:

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  11. Oie!
    Vim parar aqui por indicação no blog da Analu e acho que vou mandar esse post pras minhas amigas. Cê disse tudo que eu penso sobre isso e mais um pouco, arrasou <3
    Beijo!
    sete-viidas.blogspot.com

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