quinta-feira, 2 de abril de 2015

Pé de batata, sem conexão e Oyster card

Quem me acompanha aqui ou no Instagram sabe que eu me aventurei pelas terras da rainha (e da marijuana legalizada) no final do último ano. Das decisões certeiras que fiz na vida, essa muito provável está no topo.

Vocês viram as fotos, ou leram um wannabe post onde eu tentei relatar o que passei por lá. Mal sabem vocês do luxo que realmente foi essa viagem.

Pra começar, eu fiquei na casa de uma das minhas melhores amigas (e também soulmate porque adoramos debater). Lá eu não tinha internet. Em tese. Então pra poder ter contato com o mundo virtual, o que eu não fazia muito, eu (e a amiga que viajou comigo) apelava pros estabelecimentos com wi-fi grátis. Starbucks, McDonald's (que me renegava e nunca me deixava conectar), a pracinha do Ealing Broadway Shopping Centre, entre outros. Essa última foi o lugar onde eu mais parei, porque lá tinha de tudo. Principalmente comida. #prioridades Até hoje recebo e-mail da Waterstones por ser a minha internet favorita pra roubar pegar emprestada. Além de tudo um pouco, tinha muito frio também, porque a pracinha era aberta. Então eu só dava uma olhadinha nas redes (onde as nudes vazavam, considerando as notificações), postava uma fotinho, falava com os pais e ia embora já com a mão congelada. O caminho entre a casa da minha amiga e esse shopping levava em torno de vinte a trinta minutos caminhando. Easy, eu pensei.

Em segundo lugar, pra quem não sabe, ou seja, pra quem vive embaixo de uma pedra, Londres é cinza. Vi dois ou três dias de sol lá. Pra quem não sabe também, no Inverno começa a escurecer às quatro da tarde. Ou seja, quando é cinco horas já é noite. Só que ainda é tarde. E pra quem não sabe ainda mais, eu vivo numa cidade fria. A firmeza do tempo é quase a mesma firmeza das minhas pernas: não existe. No inverno é cinza, é frio, tem vento, é chuvoso e é um saco. 


Dito isso, saibam que num desses poucos dias de sol, consta lá o meu primeiríssimo dia de viagem. Digo, o primeiro dia que fui desbravar Londres, porque no dia que eu cheguei eu só fui morta arrastada pra um show maravilhoso beber Corona depois de 26 horas de voos e conexões. De qualquer forma, o considerado #1 foi o dia que eu fiz o Oyster Card pra semana (então eu podia usar metro ou ônibus a vontade). Mesmo dia em que eu e a minha amiga quase ouvimos o coração parar ao sair da estação e dar de cara com o Big Ben de um lado, e andando um pouco, ver a London Eye de outro. O dia estava lindo, o pôr do sol foi lindo, e eu fiquei mais perdida que cego em tiroteio quando começou a escurecer no meio da tarde. Depois que o sol vai embora, mesmo em dias nublados, o frio entra até no osso. Mas nada pra entrar em pânico, pensei  eu honestamente acho que passo mais frio aqui, do que passei lá. 

No segundo dia também pude ver o sol, mas ele sumiu atrás de nuvens depois de eu abrir a boca e dizer "a gente tá pegando uns dias bonitos, né?" (dica: nunca externalizar, só admirar quieta mesmo). Foi o dia em que passeei por toda a região da Leicester Square, Chinatown, Piccadily Circus, Green Park... Comi Burguer King e fiz a turistagem™ de ficar experimentando todos os sabores de refrigerante possíveis. Obs.: Cherry Coke é ruim demais, Dr. Pepper também. Visitei a M&M's World, uma Waterstones gigante e adorável e a Hamleys, também conhecida com a loja mais legal do mundo (eu acho) porque os atendentes ficam brincando!!! Vários atendentes. Por ANDAR. Brincando com as pessoas. ...E os brinquedos.

E foi nesse dia que meu drama mexicano começou. Lembro claramente de olhar pra minha amiga e falar "Manu, meu pé tá doendo". Por ora, eu tentei ignorar, e acho que as minhas amigas também, porque não podia tá doendo assim. Mas tava. Eu voltei mancando pra casa, mandando o mundo se colocar no lugar porque eu não acreditava que aquilo tava realmente acontecendo. Mas tava. Aos tropeços, fui embora. Já terminando o caminho da vitória (e consequentemente caindo pelas tabelas), cheguei em casa, e  pro meu desespero minha amiga tinha saído. Então lá fiquei eu, pra fora de casa, com dor, com frio, e realmente precisando ir no banheiro porque a natureza chamava. Gritava. E é bem isso que vocês estão pensando mesmo. Voltei manca e de arrasto (usando minha amiga de muleta) pra um pub de velho perto de casa. "Perto". Aqueles cinco minutos caminhando, com o pé doendo e a natureza chamando foram bem aterrorizantes. Quando realmente cheguei em casa, dessa vez com a Dona Soulmate junto, constatei que eu não tinha mais um pé humano, eu tinha um pé de batata. Pés, porque os dois estavam pior que um pão. Eu ria por fora daquilo, mas por dentro estava sofrida.

Fui homenageada, assim, com o apelido de Aleijada Hipócrita. E aí tive que rir, de verdade. Fala sério, virar personagem de Leona Assassina Vingativa é sempre algo, né?

Mas não teve remédio que fizesse a dor parar (eu só encontrava ibuprofeno naquele lugar), nem água quente, nem spray gelado, nem palmilha especial nos tênis e botas, nem noites dormindo com o pé pra cima (embora isso tenha ajudado o meu joelho começar a doer também  "o que é um peido pra quem tá cagado?", dizem as más línguas). A dor diminuía, mas voltava. Até hoje não sei o que aconteceu. Sofro de extremidades geladas, e meus pés, principalmente no inverno, são dois cubos de gelo que não há meia que salve. Mas o Fenômeno Pés Gelados não é nada raro, eu passo por ele aqui, no Brasil, e nunca algo parecido aconteceu comigo. Não caminhei além da conta, eu acho. Não usei salto, ou algo desconfortável para os meus parâmetros. Cheguei a cortar meu anticoncepcional por medo de ser alguma coisa relacionada a ele. Mas tô até hoje sem saber — e já rezando pra que não aconteça em viagens futuras.

Eu me negava a deixar aquilo me abalar, é óbveo, afinal eu não tinha vendido um rim e atravessado o oceano pra ficar morrendo por causa de um pézinho de batata, né, migos? Mas nas fotos dá pra sentir minha dor, dá pra ver que eu gostaria de estar andando com as mãos porque não dava pra encostar o pé no chão direito. Risos.

O ouro disso tudo era fazer o caminho easy pro shopping. Mudaram as configurações do video-game e ele não era mais easy, não, ele era hard(core) mesmo. O ouro era ficar se recuperando no quentinho de um Starbucks por uma hora até criar coragem pra caminhar de novo  ao menos o cafézinho era bom. O ouro era ficar com os pézinhos na banheira até eles aliviarem um pouco. O ouro foi dançar Taylor Swift na noite de Natal e pedir pra parar um pouco porque "gurias, calmem que sou aleijada hipócrita". O ouro foi sair com a mala Rex nas ruas de Amsterdam e cinco metros pra trás pedir pra "suas diaba, se acalmem que sou aleijada hipócrita". O ouro foi sair "correndo" na noite de Ano Novo gritando na rua, porque nessas alturas os pés já estavam tão congelados que não sei como não quebraram e ficaram ali, pros italianos bonitinhos pegarem.

Esses foram os ouros.

O diamante foi cair na real que dava pra pegar ônibus pro shoppingzinho dias depois de sofrência. Eu tinha a faca Oyster na mão, e o queijo, vermelho e com algumas rodas, eu deixava fugir.
O diamante foi, no último dia, descobrir que dava sim pra ter conexão em casa e ter evitado andar atrás de wi-fi grátis por dias.

Mas além de ouro e diamante, a coroa chegou de verdade quando eu pus as batatas em casa, a casa de verdade: a dor basicamente sumiu. Eles ainda pareciam dois pães (cacetinhos, a gente chama aqui na minha cidade), mas a dor aliviou de uma maneira que nem parecia que eu poderia ter chorado manhosa sete dias antes.

Coisas da vida, they say.

Então mores, fica a dica da titia Ana: sempre verifiquem todas as opções. E tratem bem os pézinhos humanos de vocês. O meu só digievoluiu pra humanóide três dias depois de eu voltar pra casa. Usar chinelo foi uma vitória pessoal.

Obs.: Chinelos. Nunca esqueçam deles.
© AAAAAA
Maira Gall