quinta-feira, 21 de julho de 2016

Desconstrução: pero que sí, pero que no

Eu desapareço, digo que voltei, desapareço de novo, aí chego e largo um texto, diria os chorões, mimizento sobre feminismo na roda. Mas fazer o quê? That's how I roll

Faz alguns anos que venho me familiarizando com o feminismo, antes de forma tímida e depois avidamente, e junto a isso olhando pro próprio umbigo pra mudar pensamentos, falas e atitudes que eu, como mulher, sempre fui acostumada a endossar, a aceitar, a não pensar duas vezes sobre. O nome disso é desconstrução. E é um treco que dói bastante. 

Dói porque não só tu percebe que as coisas tão erradas, mas como elas, às vezes, tão erradas e partem de ninguém menos que bem... você. Dói porque é um processo constante, que não tem fim. Há sempre mais pra aprender, há sempre mais pra ouvir, há sempre mais pra desconstruir, e a cada passo pra frente que a gente dá, o negócio fica muito mais pesado. Fica mais pesado porque incomoda ver dezenas, centenas, milhares de coisas erradas (pra caralho) o tempo todo. Fica mais pesado porque chega uma hora que você fica de saco cheio, não daquilo que te ensina e te coloca pra pensar, mas de saco cheio de quem parece não enxergar, se faz de desentendido, ou, pior, finge que aquilo não é real e não existe. Fica mais pesado porque você não apenas observa o grosso do negócio, você observa que é uma praga (na real, um sistema) tão bem fechado, que até nas pequenas nuances a coisa tá errada. E aí você para de achar graça, não porque você virou falso moralista, mas porque, de verdade, é muito fácil achar graça de trem errado.  

Eu aprendi muito mais do meu feminismo lendo sobre vivência do que doutrina. Já li alguns livros feministas, tenho uma penca de livros na minha lista de leitura, e a cada novo momento de estudo  ̶̶̶̶  às vezes, estudar é só se dispor a ouvir  ̶̶̶̶  eu aprendo um pouco mais, e penso um pouco mais, e fico ainda mais desgraçada da cabeça. 

Aprendi, com o tempo, que há diferença entre ser mulher, e ser mulher e negra, e ser mulher e negra e pobre, e ser mulher e gorda, e ser mulher e mãe solteira, e ser mulher e lésbica. Aprendi que quando mamacita fala, vagabundo senta, e que às vezes somos mamacita e em outras vagabundo. Foi ouvindo que eu aprendi, e é ouvindo que eu aprendo. 

Então por mais que desconstrução seja um processo longo e dolorido, por mais que o feminismo seja (des)construído aos poucos, e que ninguém acorde sabendo de tudo da noite pro dia, não custa muito  ̶̶̶̶  na real custa muito pouco  ̶̶̶̶  colocar a mão na cabeça antes de sair falando merda por aí. Principalmente se você, mesmo que negue e esperneie, tá nesse barco também. 


Não é bonitinho pagar de feminista e diminuir a mina gorda porque ela não usa 36 que nem você, e não adianta fazer fiasco não, ser chamado(a) de saco de ossos não é a mesma coisa que a opressão que o(a) gordo(a) sofre. Bonitinho é ler um pouco e pensar um pouco antes de falar bobagem. 

Também não é bonitinho pagar de feminista e fazer brincadeira com coisa séria, ou rir de piadinha com coisa séria, porque isso é o equivalente a bater palma pra maluco dançar, e eles vão continuar dançando, sabe? E no mais, enfia no cu essa piada, e essa atitude, porque ninguém mais aguenta gente babaca. 

Não é legal, muito menos certo, xingar toda e qualquer garota com base em ciúmes (vale mais resolver isso dentro do teu próprio relacionamento, it takes two to tango after all), da mesma forma que não é válido o discurso de sororidade pra passar a mão na cabeça de gente sendo escrota. 

Cagar regra no feminismo das outras não é o certo, ninguém é a desconstruidona que sabe de tudo, lá no começo do feminismo eu acreditava em liberdade (pra fazer pornô, pra prostituição, pra fazer sexo com quiser), era um feminismo muito liberal, mas a gente caminha e aprende que isso é só a porta de entrada. A gente aprende que há recortes a se fazer, que há vertentes no feminismo, e, o mais importante, que nós erramos. Então a gente discute, indaga, troca figurinhas, eu pra ajudar a mina que entrou agora nessa vida, e a outra pra me ajudar a mudar um pensamento quadrado que eu tinha. 

Lá no começo eu escorregava em bordões gordofóbicos, homofóbicos, machistas, e hoje eu já aceito com mais facilidade que eu não sou gorda porque engordei três quilos, nem que algo é gay porque é feminino (afinal, tudo o que remeta à feminilidade vai ser remetido à fragilidade, futilidade, superficialidade, e vai ser remetido, é óbvio, ao ser mulher) (porque ser mulher é tudo o que há de ruim no mundo) (só que não). 

Temos que tirar a cabeça da bunda pra perceber essas coisas, mas temos que fazer um esforço. E por mais que doa, há algo de especial em enxergar fora da caixa. 

Então sei lá, tenta? Tenta.

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